Atenas, 1896

Os primeiros JO da Era Moderna

"Spiridon Louis"

 

 

a medalha olímpica dos primeiros Jogos da era moderna

 

 

 

"Tanto histórica como emocionalmente, a cidade grega de Atenas era a localidade que reunia as condições para receber, em 1896, a primeira edição dos JO da era moderna.

A Grécia estava com problemas financeiros e o governo teria muita dificuldade em financiar os Jogos. Só um donativo de um filantropo milionário grego tornou possível a realização do evento, através da construção de um estádio novo, em mármore.

A primeira edição destes Jogos foi muito atribulada. Não havia comités olímpicos nacionais, nem equipas formais. Participaram um total de 14 países e 245 atletas, muitos deles pagando as suas próprias deslocações. Com o orgulho nacional em causa, a Grécia apresentou um grande número de atletas. Os milhares de espectadores, na sua maioria gregos, dominados pela imortalização que poetas, artistas e escultores haviam feito dos seus heróis nas olimpíadas gregas da Antiguidade, começaram a sonhar com uma boa prestação dos seus compatriotas nas provas de atletismo.

Com o desenrolar da competição, os insucessos começaram a perseguir os atletas gregos. Os americanos venceram 9 das 11 provas de atletismo, tendo a Austrália ganho as restantes 2. Os gregos não conseguiram ganhar uma única prova, o que levou milhares de adeptos a manifestarem-se ironicamente, através do que viria a ficar conhecido como a versão de 1896 de Yankee Go Home.

Para o último dia da competição, com alguns jornalistas gregos a denunciarem o profissionalismo dos americanos e a clamarem pelo fim desta farsa atlética, estava marcada a prova da maratona. Perder esta corrida histórica constituía a machadada final numa Grécia que tem a maratona gravada na sua cultura e tradição.

Em todas as escolas é contada a história épica da Batalha da Maratona, no ano 490 a.C., quando, na planície da Maratona, a cerca de 40 Km de Atenas, 7000 guerreiros gregos derrotaram 20 000 invasores persas. Para os historiadores, esta vitória grega viria a ser considerada como a batalha que salvou a civilização ocidental, tal como hoje a conhecemos. Depois da batalha, um corredor solitário foi enviado desde Maratona até Atenas para contar ao povo o grande triunfo. Quando chegou ao centro de Atenas, completamente exausto, apenas conseguiu gritar Nenikikamen (Ganhámos), para, de seguida, sofrer um colapso e morrer.

Agora, mais de 2000 anos depois, o início da maratona estava marcado para o local da histórica batalha. Dado o tiro de partida aos 17 concorrentes, a evolução da corrida ia sendo dada a conhecer aos espectadores presentes no estádio, através de mensageiros que se faziam transportar a cavalo ou em bicicleta. E, desolada, a assistência foi sabendo que, desde o início, atletas franceses e australianos se revesavam no comando da prova.

Mas quando se anunciava a chegada do primeiro corredor ao estádio, os 70 000 espectadores presentes viram entrar um cavaleiro a galope que, muito agitado, se dirigiu para a tribuna real, onde estavam sentados os príncipes George e Constantine, filhos do rei George. De repente, o sussuro nervoso vindo da tribuna transformou-se em grito: pela primeira vez, um atleta grego estava no comando da prova.

Poucos minutos depois, entrava no estádio o corredor grego. Era um pastor, chamado Spiridon Louis, que, quase exausto, tentava chegar à meta. A explosão da multidão incentivou o pastor. Os príncipes George e Constantine saltaram da tribuna e, formando uma espécie de guarda de honra a Louis, correram ao lado dele até à meta. Muitos espectadores, chorando de emoção, evocaram a palavra histórica Nenikikamen (Ganhámos).

No dia seguinte, todos referiam a magnificência da primeira Olimpíada, defendendo a sua continuação.

in Jornal de Notícias