As Corridas de Barreiras

Há cerca de 100 anos os estudantes universitários britânicos, já não se contentavam em medir as suas forças na corrida de velocidade sobre superfícies planas, preferindo, pelo contrário, transpor obstáculos montados para o efeito, neste caso saltando mais do que correndo. Os obstáculos utilizados tinham na altura de três pés e meio (1,06 metros)e provinham de cercas utilizadas na criação de gado ovino.
A ideia nasceu por volta de 1850,mais precisamente numa
tarde de Outono daquele longínquo ano, junto dos estudantes da universidade de
Oxford. Nessa época o desporto hípico tinha bastante popularidade nos
colégios ingleses, assim tal como vinha sendo hábito, disputara-se pela manhã
uma clássica de «steeple chase» pelos alunos da referida universidade,
durante a qual vários acidentes tinham acontecido, repetição, aliás, do que
se verificava sempre: vários cavaleiros e cavalos no chão, alguns deles com
ferimentos graves, sendo raros os que chegavam ao fim sem conhecerem a lama do
percurso.
Como sempre depois da prova, dirigiam-se a uma estalagem para
festejarem os vencedores. É aí que um dos estudantes, Halifax Wyatt, do
colégio D`Exeter, após ter ingerido alguns cálices de vinho do Porto
(conforme descrição in «La fabuleuse Histoire de l´athlétisme» de Robert
Parienté)- e já com uma certa alegria, exclamou aos colegas:«Para o ano
já não me apanham em cima daquelas bestas, prefiro correr a pé um percurso de
duas milhas com obstáculos».
A ideia contagiou o colégio. E alguns dias mais tarde, perto
de Oxford, no campo de Binsley, realizou-se uma grande jornada de
«Steeple-chase» pedestre. Várias corridas tiveram lugar, mas a principal, na
distância de duas milhas, compreendia 24 barreiras-sebes, num traçado através
de campos quase impraticáveis, inundados de lama e muito semelhantes aos que
normalmente eram destinados às corrida de cavalos.
24 atletas apresentaram-se à partida naquela tarde de
Novembro, animados por outros estudantes vindos de outras escolas, tudo
envolvido num ambiente festivo em que os participantes, com sapatos de cricket e
calças de flanela pelo joelho, teriam certamente muitas dúvidas quanto ao
desenrolar de tão inédita competição.
Depois de uma partida muito rápida Aitken, um dos jovens promotores desta
aventura perigosa, tomou o comando do pelotão, no entanto foi alcançado por
outro jovem e a final foi disputada ao sprint perante um lençol de lama, saindo
vencedor o representante do colégio de Exeter.
Em 1879, a prova de obstáculos é inscrita oficialmente nos
campeonatos da "Amateur Athletics Association"
A prova de obstáculos continuou,assim, ao longo de duas
décadas,a ser reservada a atletas de pernas sólidas, destemidos, com tendões
de aço e amantes de esforços duros e diferentes.
Nos Jogos Olímpicos de Paris, em 1900, são inscritos os
2500 e 4000 metros barreiras.
Curiosamente, a altura da cerca tem sido mantida nos jogos
olímpicos da era moderna. Ocasionalmente, era a barreira de então apenas de
uma jarda e esta é também ainda a medida empregada nos nossos dias (nos 400m
barreiras). Considerando os intervalos de dez jardas (9,14 metros) entre as
barreiras utilizadas no século passado bem como a primeira distância de 120
jardas (109,98 metros), torna-se difícil de verificar que desde há cem anos
quase nada se modificou. Esta circunstância preocupa, certamente os
responsáveis pelo atletismo internacional.
Na Alemanha, em 1882, verificou-se
pela primeira vez, uma corrida masculina de 150 metros, a qual foi promovida por
um clube de Hamburgo,tendo lugar no hipódromo de Altona, efectuada sob as sebes
naturais do hipódromo.
A evolução da corrida das barreiras de então até ao célebre recorde mundial
de 13,0 segundos do francês Guy Drut em 22 de Agosto de 1975, no Estádio
Olímpico de Berlim, durou cerca de um século.