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O MUNDO DA CORRIDA

 

 

 

 

Subida ao Penedo Durão 2002

 

Domingo, 4 de Agosto de 2002

 

 

 

a propósito da SUBIDA AO PENEDO DURÃO

Doiro, rio e região, é certamente a realidade mais séria que temos. (...) nenhuma outra nesga de terra nossa possui mortórios tão vastos, tão estéreis e tão malditos. Basta sentir no corpo, uma só vez, a dentada daquelas fragas que devolvem ao céu, agressivamente, a luz recebida, (...) para se ver que não há desgraça maior dentro da pátria, nem semelhante via-sacra de meditação. (...) Beleza não falta em qualquer tempo, porque onde haja uma vela de barco e uma escadaria de Olimpo ela existe. Mas a própria beleza deve ser entendida. Não é subir (...) contemplar o abismo, e quedar-se em êxtase. Não é espreitar de (...) e sentir calafrios. Não é descer para (...) estacar (...) e abrir a boca de espanto. Não é ir a (...) ou ao miradoiro de (...) olhar o caleidoscópio, e ficar maravilhado. É compreender toda a tragédia, desde a tentação do cenário, à condenação de Prometeu, ao clamor do coro”

Miguel Torga, in Portugal, 5ª Edição, 1986

 

 

A prova decorreu entre o Poblado de Salto de La Saucelle (em Espanha) - a uma altitude de mais ou menos 165 metros  - e Freixo de Espada à Cinta, com passagem pelo (Penedo) Durão, na Serra de Poiares, onde se encontra o miradouro, a cerca de 720 metros de altitude, de onde se pode contemplar  o rio Douro e uma das paisagens mais bonitas do Parque Natural do Douro Internacional.

 

Trata-se de um percurso dificílimo, uma verdadeira via-sacra de sofrimento e meditação calcorreado por atletas e caminheiros durante mais de uma hora, embora em percursos distintos.

 

O quadro descrito por Miguel Torga é bem expressivo da dureza natural e da criatividade humana investida nessa nesga de terreno. Os habitantes locais com  trabalho, suor, empenho, organização;  os desportistas com esforço, suor, garra e muita disciplina, características da modalidade. A corrida aduziu mais valia ao espaço.

 

Mas...que motivos  terão ,  os participantes para fazerem trezentos, quatrocentos, seiscentos, mil quilómetros todos os anos a fim de irem ali correr catorze singelos quilómetros? Procuram glória e poder? Por causa dos prémios pecuniários? Não haverá naquela encosta da serra de Poiares, aos pés do (Penedo) Durão nenhuma atracção fatal, mística, religiosa? Que justifique essa vontade, essa atitude quase inexplicável?

 

Naquela manhã de Domingo, somos atletas, caminheiros, ou peregrinos? Corremos num espaço profano, ou sem darmos por isso estamos num santuário a espiar os nossos pecados, oferecendo o nosso esforço e o nosso sacrifício a Deus, no pressuposto de que desta forma ficarmos mais próximos Dele, tanto física como espiritualmente?

 

Durante a corrida, não pude deixar de meditar sobre toda a simbologia bíblica que me rodeava. Lá bem no alto o Altar de pedra (Penedo) símbolo da perenidade, mas também da dureza que está ali à frente e debaixo dos nossos olhos.

 

A seus pés, a montanha - que separa o mundo divino do mundo humano e se torna a escada do mundo de cá de baixo para o mundo de Deus. É o local privilegiado do encontro do homem com o seu Deus (daí ter-me interrogado se não estávamos num santuário). É escalando-a, em peregrinação ou em penitência, que o homem se aproxima quase de Deus física  e espiritualmente.

 

Visto de cima ou de baixo, estamos perante um deserto, o local bíblico das tentações. Mas também das provas de fidelidade. Ultrapassando as dificuldades, atletas e caminheiros purificaram a alma, tornaram mais forte os seus espíritos.

 

A prova decorre sob um sol e uma luz  agressivas.. Dão vida a quem corre, e são a fonte do mundo novo que renasce cada ano naquelas encostas,  naqueles vinhedos da Serra de Poiares. Meditamos na imortalidade do homem, mas sobretudo na eternidade de Deus. Prometeu foi castigado por ter roubado o fogo e a luz aos deuses e os ter dado aos homens... É uma felicidade partilhar daquele sol e daquela luz, símbolos do bem, do bom e do positivo.

 

E o perfume da vinha e da terra? Não estarão eles a limpar-nos do pecado e  a preservar-nos de toda a perturbação na nossa ascensão ao Penedo Durão, ao limite mais próximo do Céu? Esse perfume dá alegria e felicidade. Confere mais importância ao anfitrião que é essa nesga de terra do Parque Natural do Douro Internacional. É a forma mais elegante de receber hóspedes tão ilustres como o são os atletas e os caminheiros nesse dia da corrida.

 

Por último - e estes são sempre os primeiros - a vinha, e o vinho. Ambos são símbolos da vida e da alegria. Da paz e do bem-estar. Da sabedoria e da poesia, quando provoca a euforia da embriaguez. De forma mais abrangente o vinho é o símbolo da festa.

 

A Subida ao Penedo Durão foi isso mesmo! Uma festa. De La Saucelle à distribuição dos prémios na Escola Secundária de Freixo de Espada à Cinta.

 

Viver o atletismo é como viver uma religião? Sem dúvida.  Da teoria à prática. Basta que aprendamos a ver nos signos os sinais Divinos. As provas de aventura, no seio da natureza têm esse condão, o de nos libertar das canseiras  e do stress, permitindo o reencontro com as nossas origens e com o Ser que todos temos dentro de nós.

 

A peculiaridade desta prova em Freixo de Espada à Cinta, relativamente às demais do calendário do Desafio 2002 assenta,  primeiro, na realidade evocada por Miguel Torga, depois, neste conjunto de signos-sinais religiosos que mereceram a minha reflexão. Fi-lo, na convicção de que desta forma estou a  dotar o evento de algo mais abrangente, e a suscitar outras intervenções futuras doutros indivíduos.

Duas conclusões:  o fenómeno desportivo, no sentido restrito do termo, também é cultural; dá muito bom resultado empreender as coisas sérias com espírito desportivo... (Josemaría Escrivá, 1991)

Joaquim Dias

Agosto/2002

 

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