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Hidratação e desempenho físico em exercícios de
endurance (2)
26/02/03 - Por
Reinaldo "Tubarão"
( versão original em Brasileiro )
Na primeira parte desse
artigo foi discutida a questão da hidratação e sua implicação na performance de
atletas que participam de treinos e provas de longa duração. Nessa segunda parte
trataremos da questão referente aos carboidratos, substratos de fundamental
importância para os exercícios físicos, que sabidamente limitam o desempenho de
atletas de endurance.

O objetivo primário da ingestão de bebidas durante o exercício prolongado é
fornecer água para evitar os efeitos deletérios da desidratação e, ao mesmo
tempo, fornecer substrato (carboidratos) para o trabalho muscular. O suprimento
de eletrólitos para repor as perdas pelo suor não é, num primeiro momento a
prioridade durante esse tipo de esforço, no entanto, apesar da ingestão de água
ser considerada efetiva durante os esforços de endurance, além da adição de
carboidratos, os eletrólitos podem trazer benefícios adicionais para o atleta.
Um estudo realizado nos anos 90, utilizando diferentes tipos e concentrações de
carboidratos (6% de maltodextrina; 6%, 8%, e 10% de mistura contendo glicose e
frutose), demonstrou que bebidas contendo concentrações iguais ou menores do que
10% desses açúcares, têm uma taxa de esvaziamento gástrico e absorção similares.
De acordo com esses achados, outros pesquisadores não encontraram diferenças na
taxa de esvaziamento gástrico, quando compararam soluções contendo diferentes
concentrações (entre 5 e 7,5%) e tipos de carboidratos (glicose, frutose,
sacarose e maltodextrina), com a ingestão de água, durante o exercício.
Sabidamente, o principal fator determinante da média do esvaziamento gástrico é
a concentração calórica da solução ingerida, sendo que os diferentes tipos de
carboidratos têm pequena participação nesse processo. Outros investigadores
mostraram não haver diferença na taxa de esvaziamento gástrico quando indivíduos
ingeriram quantidades moderadas de bebidas contendo carboidratos (6% - 10%).
Contudo, a média de reposição de líquidos é dependente não apenas da velocidade
média pela qual a solução é esvaziada do estômago mas, também, pela velocidade
com que essa substância é absorvida pelo intestino. Assim, é necessário
considerar esses dois processos quando se investiga a capacidade de reposição de
líquidos por meio de diferentes bebidas. Dessa forma, um pequeno atraso no
esvaziamento gástrico quando se ingere uma solução contendo carboidratos e
eletrólitos, é compensado pelo aumento da absorção intestinal da água resultante
do efeito estimulatório da presença da glicose e do sódio.
Em 1924 e 1925 um estudo pioneiro, realizado com corredores que participaram da
Maratona de Boston, demonstrou que a ingestão de carboidratos durante o
exercício prolongado aumentava a performance de endurance. O resultado desse
estudo realçou claramente a importância da ingestão de carboidratos antes e
durante a corrida prolongada.
Os efeitos e possibilidades da suplementação de carboidratos são conhecidos e
estudados desde a década de 60, quando foi descrita pela primeira vez a
estratégia conhecida como supercompensação, que se resume em uma diminuição do
conteúdo total de carboidratos na dieta (100 g/dia) durante o sexto, quinto, e
quarto dias que antecedem a competição, associado, ainda, com o treinamento de
intensidade moderada/alta e longa duração. Essa manobra permite o esgotamento
parcial dos estoques de glicogênio muscular (glicose armazenada no músculo). A
partir do terceiro dia até à véspera da competição, o atleta deveria, então,
aumentar a ingestão total de carboidratos (15 g/kg/dia) e diminuir a intensidade
e duração dos treinos, adotando o descanso total no dia anterior à competição.
Dessa forma, era possível aumentar o conteúdo de glicogênio muscular em
aproximadamente 3 vezes o seu valor normal, ou seja, a quantidade de 1,7 g de
glicogênio que normalmente é armazenado no músculo aumenta para 4 a 5 g em cada
100 g de músculo. O efeito disso se refletia num aumento do tempo de resistência
ao esforço sem diminuir a intensidade do mesmo.
Esse tipo de manobra nutricional foi, e ainda é, utilizado com sucesso por
muitos atletas, apenas houve uma modificação referente à redução de carboidratos
nos 3 primeiros dias de privação, no qual essa redução de 100 g/dia passou para
250 a 300 g/dia. É importante ressaltar que o aumento do conteúdo de glicogênio
muscular e hepático (acima dos valores normais), devido à maior ingestão de
carboidratos antes de um evento, só tem efeito em treinos ou provas com duração
maiores do que 90 minutos e em intensidade moderada/alta, onde sua utilização
como fonte energética é determinante da performance.
De fato, quando a concentração de glicogênio muscular ou de glicose sangüínea
diminuem, a intensidade do esforço obrigatoriamente tem que ser reduzida ou o
exercício tem que ser interrompido. Quem nunca sentiu tontura, perda da
coordenação, visão turva ou fraqueza geral durante uma corrida longa e intensa,
principalmente em dias quentes. Isso provavelmente se deve a diminuição da
glicemia (glicose no sangue) e do glicogênio muscular.
Sabidamente os carboidratos da dieta têm influência significativa nas suas
reservas corporais (glicogênio muscular e hepático), fato que tem estimulado uma
série de experimentos com manipulação nutricional, com a finalidade de otimizar
os estoques de carboidrato corporal e aumentar a capacidade de treinamento,
assim como, a performance durante o esforço. Contrariamente a isso, quando o
conteúdo de carboidrato da dieta de atletas é menor que o ideal, ocorre o
aparecimento precoce da fadiga.
Desta forma, estabelece-se uma estreita relação entre o consumo de carboidratos
e o conteúdo de glicogênio muscular, assim como, entre o conteúdo de glicogênio
pré-exercício e o tempo até a exaustão ou fadiga.
Alguns atletas, no entanto, experimentam a fadiga quando a concentração de
glicose está moderadamente reduzida. Parece que esses atletas provavelmente são
mais “sensíveis” a baixas concentrações de glicose. Por outro lado, outros não
apresentam nenhum sinal de fadiga até que apresentem um quadro denonimado de
hipoglicemia.
Com base nas informações expostas até aqui, pode-se concluir que o consumo
adequado de carboidratos (7-10 g/kg/dia) aumenta o conteúdo de glicogênio
muscular e hepático levando a uma melhora da performance e aumento do tempo em
esforço até a exaustão.
Até o momento, a ingestão de bebidas contendo concentrações de carboidratos
maiores do que 2,5% e menores ou iguais a 10% não irão comprometer a reposição
de fluidos corporais. Dentro dessa idéia, bebidas com concentração maior de
carboidrato (10%) podem fornecer vantagens adicionais durante o exercício
prolongado.
Recomendações para atletas de endurance:
1 - No geral deve-se consumir 1 a 1,5 g de carboidratos/kg de peso
corporal/minuto, diluídos para uma concentração de aproximadamente 7 - 10%;
2 - Nos primeiros 60 a 75 minutos de exercício o atleta deveria ingerir a
quantidade de carboidratos por volta de 1 g/kg/min, e aumentar para 1,5 g/kg/min
após esse período;
3 - Imediatamente antes da corrida ou durante o aquecimento deve-se ingerir
solução contendo 6 a 8 ml/kg/peso corporal de água, contendo aproximadamente 8 -
10% de carboidratos;
4 - A concentração de carboidratos ingerida durante o exercício pode variar para
mais ou para menos dependendo da temperatura e umidade relativa do ar. (Exemplo:
se você for treinar ou competir em dias quentes e úmidos, quando a perda de água
pelo suor é maior, a bebida deve estar menos concentrada para que você consiga
ingerir um maior volume de líquidos sem aumentar muito a ingestão de
carboidratos - doses acima de 1,5 g/kg/min não implicam em maior taxa de
absorção e oxidação do substrato, e podem levar a problemas gastrointestinais);
5 - A ingestão de líquidos com carboidratos deve ser treinada pelo atleta para
que este consiga ingerir o volume necessário sem apresentar mal estar, ou seja,
a bebida deve conter menores concentrações (5 - 7%), que deverá ser aumentada
com a melhor adaptação (10%);
6 - Após o exercício, a ressíntese de glicogênio é maior se o carboidrato (CHO)
oferecido for rapidamente digerido e absorvido, assim, deve-se priorizar
alimentos com índice glicêmico de moderado a alto (espaguete, laranja, pães de
cereais integrais, uvas, batata, arroz branco, mel e pão branco);
7 - Deve-se priorizar a ingestão de carboidratos nas primeiras horas após o
exercício físico para recuperação mais eficiente dos estoques de glicogênio;
8 - A ingestão de líquidos à base de CHO e eletrólitos, após o exercício, com
cerca de 0,9 g a 2 g de sódio/l aumenta a retenção hídrica para 70 a 80%, assim,
atletas devem consumir aproximadamente 150% do total de líquidos perdido durante
a sessão de treinamento (se você perdeu 2 kg durante a corrida, deverá, então,
ingerir 3 litros no período pós-exercício);
9 - O aumento da temperatura corporal durante o exercício causa anorexia
temporária no pós-exercício, prejudicando o processo de reposição de
carboidratos na
forma sólida. Deve-se
ingerir carboidratos na forma líquida (6 g/100 ml) para reposição adequada dos
estoques perdidos.
Reinaldo
"Tubarão" Bassit é Mestre em Ciências, Nutricionista e
professor de Educação Física, atualmente faz doutorado
no Instituto de Ciencias Biomédicas da USP. Autor de
vários artigos científicos internacionais, autor do
trabalho vencedor do 1º Congresso Internacional de
Ciências do Esporte da Gatorade (2001); vencedor por 3
vezes consecutivas do prêmio Maria Lúcia Cavalcanti
(2000, 2001 e 2002) organizado pelo CRN - Conselho
Regional de Nutrição, na categoria Nutricão Esportiva;
vencedor do III Fórum Paulista de Pesquisa em Nutrição
Clínica e Experimental, organizado pelo GANEP (2001);
foi nutricionista da primeira equipe de triathlon
brasileira a competir na Olimpíada da Austrália
(2000); nutricionista e campeão por duas vezes da RAAM
- Race Across America (1998 e 2001), com equipes de
dois ciclistas; conquistou a medalha de bronze com
Aurélio Miguel nas Olimpíadas de Atlanta (96); foi
nutricionista das equipes de futebol do São Paulo (95
e 96), do Corinthians (97), da Portuguesa (97), das
equipes de voleibol do Banespa (96 e 97) e Olympicus
Telesp (95 e 97). Praticante de triathlon, já
participou por 7 vezes consecutivas do Ironman, sendo
seu melhor tempo, até o momento, de 9 horas e 40
minutos.
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