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View Full Version : Evolução, regressão ou estagnação ?



LuisMiguel
05-02-2008, 20:31
Nos últimos tempos tenho tido a sorte de privar com alguns atletas a que posso carinhosamente chamar da "Velha Guarda". Nas conversas que vamos tendo pelo meio dos treinos e após os mesmos, verifico que marcas feitas há vinte e tal anos atrás, hoje seriam primeiros lugares em várias provas. Exemplos (e aqui vou ter que recorrer à prata da casa) : o Eduardo nos anos 80 fez 1h05 nos 20 Km Cascais, tendo sido quinto na geral. No Domingo passado na mesma prova teria sido segundo. Ganhou a primeira Maratona de Badajoz com 2h22 há 17 anos atrás e o vencedor da mesma prova em 2008 fez 2h29. Em 2007 não fez muito melhor...E se dermos uma volta pelo Estádio Universitário encontramos mais exemplos com outros atletas.
Ora como nestes anos foram descobertos novos suplementos, novos métodos de treino supostamente mais evoluidos, apostando sobretudo no refinamento e não tanto na força, melhor aproveitamento nutricional, melhor acompanhamento médico e cientifico, então porque as marcas não evoluem ? Porque se mantém recordes de há vinte anos atrás ainda de pé ? Porque ainda subsiste o Recorde Olímpico da Maratona desde os Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984 - Carlos Lopes ?
Será que a "evolução" nos trouxe o superfluo e desprezamos o treino, puro e duro ? Será que ainda poderemos considerar os métodos dos antigos mestres do atletismo português como exagerados ?
Qual a vossa opinião ?

Eduardo Santos
06-02-2008, 13:51
Belo tema Miguel!!!

(a minha melhor marca nos 20 km de Cascais é exactamente 1.04.20)

E se a análise passar para a pista, tendo em conta apenas as marcas dos 1500, 5000 e 10000 metros nos últimos 20 anos, a nossa crise do fundo e meio fundo está de algum modo explicada. Terá isto reflexo nas provas de estrada?
Mas em relação à pista, voltarei ao assunto!

Na estrada, e acreditando que as medições dos percursos estão correctas a crise de marcas é notória e de certa maneira preocupante.
Penso que a evolução havida nas metodologias de treino, ao longo dos últimos 20 anos não foi aplicada da forma mais coerente e correcta.
Alguns dos métodos de treino que fizeram de Carlos Lopes, Fernando Mamede, Rosa Mota, os melhores atletas do Mundo, foram postos na gaveta.
Mudaram-se os tempos, mudaram-se as vontades, impera agora a vontade de ganhar algum dinheiro, em tudo o que é prova, isso implica como é evidente resultados menos bons, o que quer dizer que também se mudou a filosofia de encarar um calendário para a obtenção de bons resultados. Muitos atletas e treinadores fazem o seu calendário com os valores monetários como o seu objectivo principal. Os resultados, as suas perfomances passam para segundo plano.

Como diz o Miguel, hoje há mais condições de treino, o acesso à informação está ao alcance de todos, há melhores sapatos de corrida, há quenianos por todo o lado, as marcas nas corridas deveriam ter acompanhado esta evolução...

Vou voltar ao assunto

Alguns exemplos da minha carreira (já que o Miguel me apresentou como exemplo)

Foi feita uma escolha aleatória (10 competições com 19 a 21 anos), apenas na meia do Pombal, perderia um lugar...

20 km de Almerim
1987-1.03.21 / 4º ( em 2007 voltaria a ser 4º)
1988-1.04.04 /10º (em 2007 seria 8º)

Corrida dos Sinos
1988-48.25 / 25º (em 2007 seria 6º)
1991-46.51 / 13º (em 2007 seria 1º)

Fogueiras
1988-46.05 / 3º (em 2007 seria 1º)

Meia da Marinha Grande
1987-1.05.52 / 6º (em 2007 seria 3º)

Corrida do 1º de Maio
1986-47.33 / 8º (em 2007 seria 4º)

Maratona de Lisboa
1987-2.22.09 / 8º (em 2007 seria 3º)

Meia do Pombal
1986-1.07.46 / 9º (em 2007 seria 10º)

Meia Maratona de Sevilha -Los Palácios
1986-1.07.07 / 10º (em 2007 seria 10º)

Ou eu corria muito, ou esta malta anda a brincar às corridas...

Orlando Duarte
06-02-2008, 21:37
Não tenho tanta facilidade de comparar classificações como o Eduardo. Pela simples razão de não andar nos primeiros dez classificados como ele. Porém, estou, em parte, de acordo com a tese do Luís Miguel. Ainda na Segunda-feira comentava com um colega este assunto.
Indo aos arquivos e analisando as sete participações que fiz em Cascais, comparando com o mesmo lugar classificativo em 2008, estes, têm sempre mais tempo, excepto em 2007 em que o 374º fez menos 22 segundos:

23/2/1986 – 399º 1.26.00…..1.31.32 + 5m32s

21/2/1988 – 131º 1.15.21…..1.22.05 + 6m44s

4/3/1990 – 444º 1.24.25……1.33.02 + 8m37s

3/3/1991 – 403º 1.25.07……1.31.44 + 6m37s

9/2/1997 – 159º 1.21.24……1.23.29 + 2m05s

18/2/2007 – 374º 1.30.43….1.30.21 – 22s

Eduardo, de facto tu corrias bem, mas esta malta não anda a brincar às corridas.

Não obstante portugal ter excelentes atletas veteranos, a resposta está nos 80 % de veteranos do nosso pelotão.

E se continuarem a proibir os jovens adultos de participarem em provas com mais de dez km, o resultado ainda vai piorar mais. Duvidam?

Eduardo Santos
07-02-2008, 11:53
Orlando
Concordo com aquilo que referes!
Penso no entanto que a abordagem do Luís Miguel se refere aos resultados dos primeiros classificados em várias provas, o que à partida dá para realizar análises mais elucidativas em termos evolutivos.

LuisMiguel
07-02-2008, 12:52
Orlando
Concordo com aquilo que referes!
Penso no entanto que a abordagem do Luís Miguel se refere aos resultados dos primeiros classificados em várias provas, o que à partida dá para realizar análises mais elucidativas em termos evolutivos.


Exactamente !
Dei como exemplo o Eduardo por ser o exemplo mais concreto e também o mais à mão...
Evidentemente que esta situação não se aplica ao grosso do pelotão, mas apenas a atletas de craveira.
E quem gostar de estatisticas deve verificar a estagnação ou regressão nas marcas ao longo dos ultimos anos. De vez em quando, lá aparece um fenómeno fabricado por uma multinacional desportiva para deitar abaixo um recorde, mas são casos raros. Onde estão aqueles "cavalos", autenticos poços de força ? Quem hoje fará uma maratona como o Carlos Lopes fez em Los Angeles, que ninguem deu por ele senão já depois dos 25 Km, deixando toda a gente pregada ao chão, arrancando, debaixo de um calor abrasador, para um recorde olimpico que passados 24 anos (e outro tanto em peso também) ainda lhe pertence ??? Isto é normal ? Vinte e quatro anos imbativel nos J.O. ?
Tudo há volta do atletismo evoluíu (materiais para treino, métodos, nutrição, massagens, etc.), menos as marcas. Deveria ser habitual as marcas melhorarem de uma forma gradual e consistente.
Se calhar os metodos de treinos de alguns antigos mestres do atletismo, não eram assim tão "trogloditas"...

Álvaro
08-02-2008, 14:55
Mas a curva dos resultados não é uma recta ascendente. Senão, dentro de mil anos, os atletas correriam a 200km/h! Talvez haja um limite para que tendam os resultados, que não poderá ultrapassar-se.

No entanto, também acho estranha estagnação que, de facto, existe. Os resultados deveriam melhorar continuamente, ainda que, devido ao tal limite, cada recorde seria batido por uma diferença cada vez mais pequena…

Talvez a repercussão dos avanços técnicos e tecnológicos na corrida se manifeste melhor noutros aspectos. Em lugar de examinarmos os atletas de elite, talvez se devesse medir a evolução dos tempos médios do pelotão. Será que, esse, tem evoluído continuamente? Se se somarem os tempos de todos os participantes e se dividir a soma pelo seu número, os resultados evoluíram continuamente, ou não?

Outro índice de progresso desportivo será também o do número de participantes nas provas. Tem aumentado sempre, ou regredido?

…E essa dos atletas a correr a 200km/h daqui a mil anos…Pensando bem… Porque não?!

Abraço a todos
Álvaro

aar
08-02-2008, 21:11
Mas a curva dos resultados não é uma recta ascendente. Senão, dentro de mil anos, os atletas correriam a 200km/h! Talvez haja um limite para que tendam os resultados, que não poderá ultrapassar-se.





Parece que sim. No Lore of Running estão algumas destas previsões, incluindo as de uns especialistas em fisiologia chamados Peronnet e Thibault que, ao que parece. desenvolveram um modelo que se tem revelado muito preciso. O modelo foi proposto em 89, e prevê os seguintes tempos para a Maratona:

em 2000: 2:05.23
em 2028: 1:59.36
em 2040: 1:57:18.

limite máximo: 1:48:25

Portanto, malta, não vale a pena esfalfarem-se em Sevilha, que da 1:48 não baixam..eheh

Já agora, e porque o quadro é grande e não o consigo copiar todo para aqui, aqui ficam, a título de curiosidade, mais alguns limites teóricos que este modelo prevê:

Meia maratona: 52:20
10k: 23:36
5k: 11:11
1500: 3:04
400m: 39:60
100m: 9.37

German Gomes Azevedo
08-04-2008, 20:25
Boa noite
A questão é pertinente no ponto em que nos encontramos pelo facto de actualmente em alguns desportos estarem a passar exactamente por este mesmo dilema , sendo o exemplo mais actual o da natação nos recentes campeonatos do mundo . Sem me querer alongar nesse tópico , chega se sempre a um ponto em que a evolução é lenta senão estagnar mesmo . A evolução existe e existirá sempre pela psicologia humana de continua superação , mas a um ritmo descontinuo na minha opinião , porque ultimamente dá se menos enfase á psicologia comportamental no ambito da motivação do que a factores externos , nomeadamente equipamentos , traçados , etc . basta ver o exemplo da meia maratona de Algés , onde o vencedor alegou que o recorde do mundo não foi quebrado devido ás condições climatéricas . Acaso Carlos Lopes mencionou o tempo quando obteve o tempo que obteve ? Acaso Eusébio queixou se da bola ou da camisola não permitir uma mais fácil sudação ? Como antes houve a discussão em relação aos suplementos , ao doping e agora , em alguns desportos , em relação ao equipamento chega se a um ponto em que se deve pensar senão será melhor estagnar para evoluir do que evoluir rumo á estagnação porque , como muitos participantes mencionaram , e na minha perspectiva bem , chega se ao ponto de haver provas " á medida " como o recente caso das "duas" meias de Lisboa . Por isso na minha perspectiva , existirá sempre evolução , como existirá sempre estagnação . Neste momento passamos por uma fase de maior estagnação , principalmente em termos de tempos , na minha perspectiva essencialmente devido ao trabalho desenvolvido nos bastidores pelas equipas tecnicas em busca de resultados a curto prazo , nomeadamente classificações e méritos . Um verdadeiro campeão revela se nas adversidades , não nos facilitismos .
Cumprimentos