Serão as Corridas de Aventura pela sua exigência física e complexidade uma alienação? Ou garantem pelo desafio que também constituem um momento de felicidade desportiva?
Edson Struminski pretende formular uma resposta com este artigo.
As corridas de aventura surgiram no universo dos esportes na natureza há cerca de 20 anos tanto no Brasil como no exterior. Inicialmente tinham forma amadora e despretensiosa, mas logo adquiriram uma evidente conotação comercial. Rapidamente tornaram-se uma importante tendência de mercado e hoje existem diversas publicações, sites na internet, empresas que organizam corridas ou fabricam equipamentos especializados, enfim, existe todo um universo aventurista, que inclui atletas e equipes organizadas com patrocinadores e uma vasta e diversificada agenda, que explora a diversidade de ambientes naturais do país e no mundo.
O que atrai as pessoas a estas atividades? Em uma leitura das diferentes publicações do gênero podemos encontrar diferentes motivações para as pessoas participarem destas atividades: o fortalecimento do ego, o trabalho em equipe, a superação de limites, a busca da liberdade, a prática de atividades físicas intensivas na natureza, o aprendizado para lidar com medos, o sentimento de conquista, enfim, aparentemente as corridas são utilizadas como motivadoras para a vida destas pessoas.
Poderia-se argumentar, então, que excetuando a presença da natureza como cenário, as corridas de aventura em nada se diferenciam de outros esportes competitivos praticados em estádios ou em ambientes controlados. Na verdade a mescla de motivações nos remete aos desafios que as pessoas já encontram em ambientes competitivos encontrados nas suas vidas corriqueiras. Isto sugere que pessoas poderiam participar destas corridas para compensar aquelas frustações do dia a dia tão comuns. Mas imagino que neste caso o saldo seria positivo, pois ao procurar um grupo afinado para competir, um participante poderia estar dizendo a si mesmo “eu posso trabalhar em equipe”.
Por outro lado estas corridas possuem, de fato, uma tendência organizacional muito forte, para padronizar as provas e fazer com que os competidores só disponham de liberdade limitada ao usar sua criatividade para vencer obstáculos, ao contrário do que ocorre em outros esportes praticados na natureza que exigem também uma performance respeitável, mas principalmente muita criatividade. Assim o participante é, na verdade, bastante limitado individualmente, ainda que haja um ganho associativo, na percepção de pertencimento a um grupo social ou equipe.
A presença da natureza nesta corridas, no entanto, necessita de uma avaliação mais complexa. Embora a natureza apareça como diferencial motivador para seus praticantes, o ambiente natural tende a ser totalmente “humanizado”, ou seja controlado pela organização dos eventos. Os participantes devem caminhar, correr, subir e descer paredes, cruzar rios, remar, pedalar, mas não da forma como bem entendem, pelo tempo que quiserem ou com os recursos de que disponham. Assim a experiência da natureza é necessariamente limitada pela “organização”, uma entidade superior e mais ou menos abstrata que toma as principais decisões pelo participante e cria necessidades artificiais ou regalos para eles. Os praticantes devem, por exemplo, ter de subir um paredão rochoso, mas não necessariamente pela pedra, como fariam os montanhistas e sim por uma longa escada de cordas fixada antecipadamente.
Assim, a visão dos organizadores influencia diretamente o evento. Uma organizadora de corridas declarou, de maneira bastante maternal para a revista Aventura e Ação, que a preocupação dela era transmitir felicidade para os participantes, o que incluía a distribuição de chá quente nos pontos considerados “frios” das provas, como na etapa do remo. A empresária declarava também que havia feito uma arrecadação de material escolar a título de contribuição para a comunidade. No entanto, aparentemente uma visão mais humanista destas provas não é unânime. Não são incomuns críticas e autocríticas pesadas de danos e impactos destas corridas, tanto ambientais quanto sociais.
ALGUMAS POLÊMICAS ÉTICAS
Em um artigo publicado na revista Nez Adventure no ano 2000, Demetrius Alexandre, um organizador de corridas associado a uma entidade chamada Eco Sistema, lucidamente chamava a atenção para o pouco que havia sido feito, de fato, para implementar ações que contemplassem a sustentabilidade destas atividades tanto do ponto de vista social como econômico e ambiental. Passados 3 anos Márcio Bortolusso, outro observador privilegiado destes eventos, ressaltava os danos destes eventos e insistia em outro artigo publicado nesta revista, que este esporte necessitava mesmo era de uma boa revisão de conceitos éticos.
Mas quais são os conceitos éticos da corrida de aventura? À primeira vista o aspecto competitivo é o que prevalece nas matérias relacionadas a este assunto, assim, a vitória mediante o domínio de obstáculos é o principal mote para a realização destas atividades. Vitória sobre os demais competidores ou sobre a natureza (ou ambos). Assim o valor humanista cooperativista (trabalho em equipe, contribuições sociais), acaba sendo camuflado ou reduzido pelo ideal competitivo. Para uma sociedade que prima pela competição, incensa os (poucos) vencedores e prega o domínio e uso da natureza (“competir contra o próprio ambiente” ou “rasgar o mato”, diz um atleta), este tipo de competição é, assim, o ideal. A natureza passa a ser mais um pista de obstáculos (um rally humano no dizer de outra atleta) do que propriamente um cenário a ser visto, apreciado e compreendido e de onde podem se tirar lições valiosas. Por outro lado, a caridade que surge em algumas competições parece surgir apenas como uma forma de aplacar a consciência, pois não geram mudanças sociais duradouras. Mas para aqueles que como Bortolusso, tem uma formação bem fundamentada como montanhista e, por isso, apresenta maior preocupação com o patrimônio coletivo, este tipo de ideal já não satisfaz. Daí surgirem estas dúvidas sobre a sustentabilidade do esporte.
Isto explica a permanência de pendências e polêmicas relacionadas às corridas de aventura. Uma corrida poderá ser tanto mais alienada ambiental e socialmente quanto forem seus organizadores e participantes. Meu colega Hebert Sato revisou recentemente a relação Homem-Natureza a partir do montanhismo, mas o estudo dele trouxe algumas leituras que podem ser úteis também no caso das corridas de aventura. Ele utilizou como referência Herbert Marcuse, filósofo da conhecida Escola de Frankfurt, que discute profundamente a questão da alienação. Marcuse sugere que nas sociedades modernas a natureza é vista como objeto a ser dominado, sendo-lhe negada potencialidades ou qualidades intrínsecas. Esta dominação é estendida à sociedade e à cultura, determinando necessidades ao ser humano além das naturais e que hoje se exprime no consumo da tecnologia, a forma mais marcante de relação do ser humano com a natureza, mas que gera um ser alienado da realidade.
Marcuse afirma que o ser humano tem necessidade de provar sua capacidade em todos os sentidos (seu desempenho). Isso acaba gerando formas de domínio na medida em que o homem tem de estar sempre ultrapassando limites, dominando o mundo a seu redor. Mas isto é feito de modo inconsciente, sendo o homem alienado do contexto sob o qual ele está imerso, seja natural ou social.
ALIENAÇÃO OU FELICIDADE?
Desempenho crescente, superação de limites, domínio do mundo, são palavras comuns no discurso dos atletas das corridas de aventura. Mas será que isto leva necessariamente à alienação? Sato comenta que inicialmente os montanhistas que entrevistou tinham uma relação igualmente alienada com a natureza, mas que com o tempo ocorreram mudanças e, mesmo mantendo o desempenho, eles desenvolveram um elo afetivo com os locais de escalada, ou até uma “filosofia de vida”, ou como Marcuse afirma, transcenderam a busca alienadora pelo desempenho, por uma busca pela felicidade. Mas os montanhistas de Sato tinham invariavelmente um longo tempo de convívio (de no mínimo 10 anos a mais), com as montanhas, com idades que iam dos 26 aos 43 anos . Tempo suficiente para desenvolver esta “filosofia de vida” mais elaborada. Já um ex-atleta de corridas de 36 anos, entrevistado pela revista Aventura e Ação revelou que praticou o esporte por apenas 6 anos e abandonou para não “chegar aos 40 com artrose e todo arrebentado”, migrando depois para atividades esportivas menos competitivas e mais contemplativas.
Assim, se a corrida de aventura, por um lado, exige um alto desempenho e juventude, brindando com a vitória, de outro cobra um preço alto de seus praticantes, por um curto espaço de tempo. Com isto, aparentemente impede que seus praticantes amadureçam e abandonem a busca alienadora pelo desempenho, dentro do esporte, com tudo o que isto possa significar em termos de danos ambientais e sociais, por uma busca pela felicidade. O grande paradoxo das corridas de aventura parece residir aí: quando as pessoas amadurecem e progressivamente podem deixar de ser alienadas, acabam tendo de abandonar o esporte (ou será que acabariam com o esporte?). Daí fica uma pergunta no ar? É possível a corrida de aventura deixar de ser uma atividade alienante?
VEJA TAMBÉM!
SATO, H.H. Pensando a relação homem-natureza a partir do montanhismo, um estudo de caso no morro Anhangava – Pr. Monografia de especialização em Educação, Sociedade e Tecnolocia. Curitiba, 2006. Universidade tecnológica Federal do Paraná.
MARCUSE, H. Eros e a civilização. Campinas. Editora Papirus. 1999.
LACOMBE, M. A mulher mais resistente do mundo. Aventura e Ação, no 78, agosto de 2000.
PORTELA, C. Corrida de aventura: você tem o perfil? Aventura e Ação, no 117, maio de 2004.
ALEXANDRE, D. Adventure Racing. Nez Adventure, no 17, 2000.
BORTOLUSSO, M. Mínimo impacto em corridas de aventura. Adventure, no 48, 2003.
ABRANCHES, E. É ela quem manda. Aventura e Ação, no 120, agosto de 2004.
Motivos que levam o indíviduo a participar em Corridas de Aventura
Resumo de um trabalho de dois investigadores brasileiros sobre a realidade dos praticantes de Corridas de Aventura no Brasil
Resumo Dentre os hábitos de Lazer do homem urbano, cresce cada vez mais a prática dos chamados esportes de aventura, que reúnem um grupo de atividades esportivas, onde os riscos calculados, combinados à prática de atividades físicas em ambientes não convencionais ou de natureza atraem um número cada vez maior de praticantes. A reconhecida expansão deste mercado, fomentada por empresas especializadas, neste segmento, e a exposição da mídia expõem não apenas uma nova linha de atuação no campo dos esportes como também um fenômeno a ser apropriado e entendido pelo meio acadêmico. Este estudo tem como objetivo geral, verificar os motivos que mantém a prática dos usuários de corrida de aventura. Participaram do estudo 50 atletas, sendo 35 do sexo masculino e 15 do sexo feminino de diversas cidades do estado do Rio Grande do Sul com faixa etária de 19 a 54 anos de idade. A abordagem metodológica foi o de estudo descritivo-exploratório com utilização de um questionário adaptado de Samulski (2000). Os resultados mostram que 60% dos entrevistados consideram o conhecer meus limites, motivo decisivo na prática das corridas de aventura; 28% consideram importantes e apenas 12% pouca importância. Estar em contato com a natureza teve 64% de respostas como fator decisivo; 34% muito importante e 2% sem importância. Concluiu-se que os motivos mais relevantes na busca pela prática das corridas de aventura são os de conhecer o próprio limite, tanto físico e/ou mental, devido ao constante esforço de horas e até mesmo dias de competição e também estar em contato com a natureza, onde não sabemos o que está por vir e fugimos um pouco do caos urbano, mantendo nossa mente pura e sadia. Unitermos: Motivação. Atividade física. Esporte de aventura. Corrida de aventura.
Rodrigo Muradás* Leandro Tibiriçá Burgos
*Graduando em Educação Física **Professor Orientador UNISC - Universidade de Santa Cruz do Sul Rio Grande do Sul
Uma das coisas mais importantes para se viver uma boa aventura é evitar lesões. Machucar-se, além de causar transtornos e exigir ações de primeiros socorros , pode fazer com que o aventureiro de primeira viagem passe a ter uma visão pejorativa dos esportes praticados em contato com a natureza. A idéia de que as pessoas que praticam atividades outdoor são verdadeiros suicidas é enganosa: são pessoas que adoram a vida e querem aproveitá-la muito bem.
Por isso, é tão importante a prevenção de lesões. Em primeiro lugar, é necessário que a pessoa que vai praticar uma atividade em ambientes naturais observe seus hábitos e modifique, se necessário, algumas coisas no seu estilo de vida. Praticar algum exercício regularmente, alimentar-se de forma mais saudável e variada, evitar estimulantes como cafeína, álcool e outras drogas, são atitudes que ajudam a evitar lesões durante o esforço físico e outros problemas de saúde mais sérios.
Evite ingerir bebidas alcóolicas antes de partir para a sua aventura. O álcool desidrata o organismo, acelera o desgaste físico, altera a regulação da temperatura corporal e em maiores doses provoca alterações mentais que afetam a concentração e o julgamento, o que pode causar não só lesões, como acidentes graves. Uma boa hidratação é fundamental para qualquer atividade física e essencial para uma vida saudável.
Humildade e segurança - Durante a prática esportiva, não basta apenas um corpo saudável. É fundamental ter uma atitude saudável, respeitando os procedimentos de segurança, o meio ambiente, os outros e a própria vida. Mesmo pessoas experientes, acostumadas a atividades de aventura, devem respeitar todas as regras com atenção, para não correr riscos desnecessários .
Dentes quebrados e batidas na boca, por exemplo, são lesões comuns no rafting, causadas por acidentes com remo . É fácil evitar esse tipo de acidente prestando atenção às instruções dadas antes da descida. Técnica, postura e movimento correto, não devem ser vistos como acessórios. São procedimentos fundamentais para evitar lesões, desde as mais simples, como torções e arranhões, até as mais sérias que podem levar à morte.
Agir sempre como iniciante, prestando atenção aos detalhes, é uma boa dica. A outra, para quem está realmente começando, é ter o cuidado de procurar empresas e instituições idôneas para captar informações. Nas instituições (clubes, associações, etc.) a preocupação com a segurança e o respeito aos praticantes ajudarão você a entender quais são os procedimentos corretos e quais devem ser evitados.
Aquecimento, alongamento e cuidado com os pés
Aquecimento antes e alongamento/esfriamento depois da atividade física ajudam a prevenir lesões. Porém, nem todos os praticantes dessas atividades têm o hábito de dedicar algum tempo a estes cuidados fundamentais. As conseqüências, principalmente em ambientes naturais, onde o esforço físico é geralmente extenuante, podem ser muito ruins.
No aquecimento devem ser adotadas as mesmas posturas que são utilizadas para alongar os músculos. O que muda é o tempo que você permanece na posição: quanto mais tempo, maior o relaxamento. Por isso, não permaneça mais que trinta segundos na mesma postura, pois a partir desse tempo ao invés de deixar o músculo alerta para atividade, você provocará um relaxamento que poderá prejudicar o rendimento do mesmo.
Cuidados com os pés - Uma das lesões mais comuns durante a prática dos esportes de aventura é a torção. Além dela, as bolhas nos pés também costumam prejudicar bastante os aventureiros. Pode parecer pouco, mas caminhar quilômetros tendo de agüentar a dor provocada por uma bolha pode transformar um passeio, que deveria ser prazeroso, em um verdadeiro martírio.
Por isso, o cuidado com os pés é muito importante na prevenção de lesões. Deve-se, em primeiro lugar, prestar atenção na escolha do calçado, que precisa ser adequado à prática esportiva. Também escolha meias corretas e nunca esqueça de levar algumas a mais. Um tênis seco, de reserva, também ajuda. Pés úmidos ficam com a pele mais frágil, facilitando processo de formação de bolhas e feridas. A dor provocada pode tirar a concentração, provocando quedas e outros acidentes.
O cuidado com os pés deve ser intenso: sempre que puder, passe cremes, hidrate-o e proteja-o da umidade. Pode parecer frescura, mas fará uma grande diferença. Você se sentirá mais feliz e confortável, aproveitará melhor e evitará uma série de lesões.
Dificuldades do ambiente
Muitas das dicas dadas até agora referem-se a cuidados que devem ser tomados em qualquer atividade física. Nos esportes de aventura, porém, é necessário atentar para algo muito importante: o ambiente.
Em primeiro lugar, os ambientes inóspitos onde acontecem a maioria das aventuras, costumam ter grandes variações de temperatura. Esse fato pode acarretar problemas fisiológicos, como hipotermia ( rebaixamento perigoso da temperatura corporal ) ou hipertermia (elevação da temperatura corporal ). Para evitar estes problemas , mais uma vez entra a questão do planejamento correto (que alimentos levar? Haverá água no caminho? É necessário levar um fogareiro?)
Não esquecer que a roupa adequada fará muita diferença numa aventura ao ar livre. Roupas leves, que permitam a transpiração e evaporação do suor, ajudam a regular a temperatura do corpo e tornam a atividade menos desgastante. Lembre-se de que num mesmo dia, em uma mesma região, a temperatura pode atingir extremos de frio e calor. Por isso, sempre leve roupas adequadas às variações térmicas do local. Mangas longas e calças compridas são recomendáveis para incursões no mato, principalmente para pessoas de pele sensível e alégicas. Evitam arranhões, picada de insetos, acidentes ofídicos e queimaduras solares.
Nunca se esqueça também dos equipamentos. Cheque-os um a um antes de sair de casa. Converse com seus companheiros de aventura para saber se eles também estão devidamente equipados. E NUNCA SE AVENTURE SOZINHO.
Oi pessoal bom dia!
Gostei muito deste fórum, curto muito esportes radicais e que têm contato com a natureza!
Eu estive procurando bastante por esportes deste tipo na internet e lí este artigo aqui e gostei muito.
Encontrei também um site de turismo ecológico que gostaria de compartilhar com vocês, lí mais sobre corrida de aventura e estou mandando aqui pra quem quiser dar uma olhada.
Tem também guias de cidades bem interessantes para visitar!
Fiquem a vontade, até mais!