Faleceu este domingo, dia 18 de Março, António Leitão, antigo atleta do Sport Lisboa e Benfica. Este é um dia em que o atletismo e o desporto português ficam mais pobres. Aos seus familiares e amigos, O Fórum O Mundo da Corrida endereça as mais sentidas condolências.
Passo na íntegra a entrevista realizada por Paula Moura Pinheiro em 23 de Setembro de 1998 para a revista Indy. Esta entrevista esteve cerca de três anos online no site "O Mundo da Corrida", devidamente autorizada pela direção da revista.
Vale a pena ler com atenção!
António Leitão
António Leitão é um dos portugueses olímpicos. Há catorze anos, nos jogos de Los Angeles, ganhou a medalha de bronze nos cinco mil metros. Fora muitas outras proezas desportivas. De uma resistência física excepcional, foi várias vezes classificado entre os primeiros melhores atletas do mundo.
António tem agora 38 anos e uma desconcertante falta de saúde. Há dois meses esteve em risco com um problema cardíaco.
Esta conversa aconteceu dois dias depois da morte de Florence Griffith-Joyner. Supostamente, a ela também lhe faltou o coração. A rapariga supersónica, que ganhou a sua primeira medalha olímpica nos mesmos jogos em que António ganhou a dele, e que, como António, abandonou o atletismo no auge da sua forma, tinha, como António, 38 anos. Uma idade em que não é para falhar o coração a ninguém. Sobretudo, quando se é um atleta de excepção.
Mas, as coincidências entre a vida da flamejante Flo e do discreto António ficam-se por aqui. E, por uma vez, a história do nosso António é muito melhor que a da Florence deles. Se não acredita, leia.
Encontramo-nos na Olimpíada. A Olimpíada é a loja de artigos de desporto que António Leitão montou em Espinho e que tem sobre o balcão recortes de jornal amarelados com ele a correr de braços esticados para o céu. A correr no final das corridas, com os braços esticados para o céu. Vitorioso. Claramente, a gozar o prazer do dever cumprido.
Agora, António está diferente. Se não dissesse quem era, não o descobriríamos. Pouco nele faz lembrar o rapaz que triunfa nos recortes de jornal. Talvez o sorriso. De uma amabilidade enorme. Um pouco o sorriso, sim.
De resto, António apresenta uma má cor e uma magreza despropositadas. Cansa-se, fala devagar com um velhinho, e usa uns dedos brancos, finos, longuíssimos, sem o mais leve vestígio de firmeza. Da firmeza que seria de esperar num, ainda jovem ex-atleta de alta competição. António é um homem tomado pela debilidade.
Em todo o caso, não desiste. Na rua, acena como um Papa. Conhece todos os transeuntes. E todos o conhecem a ele. Parecem gostar uns dos outros. Por estes dias, é o que lhe tem valido. Os conterrâneos e amigos. E a namorada de há dezasseis anos. E a irmã que é sub-gerente do Banif em Gaia e que é quem lhe trata das contas da loja e dos outros negócios. E o Carlos Lopes e o Fernando Mamede (telefonou durante a entrevista) e a Rosinha Mota e todos os grandes atletas retirados com quem se dá. Para não esquecer os políticos promotores da região de Espinho, de que é um fã incondicional. Apesar da debilidade. António não resiste. É um talento social.
Mas, acima de todos, tem-lhe valido a mãe. Setenta e quatro poderosíssimos anos, ainda ali para conduzir os camiões da empresa de transportes da família, sem co-piloto nem atrapalhações de espécie nenhuma. Ainda ali para amparar o filho, como se fosse ela a filha dele e agora lhe tivesse chegado a vez. Rija
É com a mãe que António vive desde sempre. Na casa de sempre. Mesmo à beira do mar picado de Espinho. Na casa que já foi pensão e restaurante. Tudo deles, tudo para trabalhar. Criou-se ali. Adolescente a descascar cinquenta quilos de batata por noite, a dormir num cubículo improvisado para deixar mais um quarto aos hóspedes, e ainda ir à escola e a ir aos treinos do Sporting de Espinho. Esforço e alegria. Exactamente como convém ao berço de todo o fundista que se quer bom. É assim que António conta o princípio de tudo: esforço e alegria.
" Sou-lhe sincero, tanta viagem que fiz e tinha sempre saudades de voltar depressa para casa. "
Florence Griffith morreu esta semana.
Pois foi. A mim entristece-me porque convivi com ela em 84, em L.A. Não tanto como gostaria, mas conversámos várias vezes.
Como era ela pessoalmente?
Sabe, o que eu vou dizer aplica-se aos americanos todos nas competições: eles impõem sempre uma distância em relação aos outros países, aos outros atletas. Uma espécie de superioridade. Claro que pode ser apenas uma questão de marketing, mas dá atitude altiva. Depois, no caso concreto da Florence, havia a chamada permanente de atenção com coisas que não tinham nada a ver com o atletismo: o comprimento das unhas, a maneira como se apresentava vestida, sobretudo nas galas, vestidos complicados, compridos, tudo mesmo a sério para uma gala.
Era gira?
Era. Tornava-se gira porque se produzia imenso. E ainda era mais gira se comparada às atletas da RDA, por exemplo. Essas eram horríveis. Cheias de pêlos por todos os lados. Bigode, barba, tudo. Para não falar das que tinham mais músculos que eu.Tudo devido às substâncias que tomavam, claro está. Se a Griffith tomava ou não, não sei, mas que se cuidava e que era feminina e engraçada, isso era. E muito elegante. Sendo uma moça alta já se sabe que se é sempre mais elegante, mas até a correr era elegante. Era gira, sim senhora.
Por falar em doping...
Olhe, custa-me pôr as mãos no fogo por alguém, mas no meu tempo praticamente não se falava de doping em Portugal. Falava-se de forma muito pontual e quase sempre a propósito de algum caso internacional. Como o Lasse Viren, que correu com o Carlos Lopes e de quem se provou depois que fazia as tais transfusões de sangue.
Para os velocistas, como a Flo-Jo, eram os esteróides; para os fundistas, como o António e o Carlos Lopes, eram as transfusões com o sangue do próprio atleta em condições excepcionais...
Exacto. Acontece que isso tem de ser feito com o apoio de laboratórios e de técnicas muito sofisticadas que não existiam em Portugal na altura. Pelos portugueses dessa altura, por esses, sou eu capaz de pôr as mãos no fogo. Éramos um país demasiado fraco, demasiado pobre para termos dessas coisas. Nem nós, os atletas e até os treinadores, tínhamos expediente ou dinheiro para ir procurar disso noutro sítio. Não. Nem nos passava tal coisa pela cabeça. Concentrávamo-nos nos treinos e pronto.O que os portugueses ganharam no atletismo, contra os americanos e os outros, foi só com treino e com esforço. Verdadeiros. Sem truques. No meu caso, em L.A., o que ganhou a medalha de prata, o suiço Markus Riffel, foi apanhado dopado pouco depois noutra competição.
Quem sabe se, pelo mesmo motivo, não deveria ter sido sua a medalha de ouro também?
Nunca o saberemos, Portugal nunca se mexeu para demonstrar as fraudes que prejudicam os seus, para nos proteger, como fazem os grandes países. Mas também não importa. O facto é que eu tenho o maior orgulho em pertencer a essa geração de atletas portugueses. Acho que, só com água e com comidas sadias, naturais, éramos excepcionais. Com alguns dos resultados alcançados, isto é de uma relevância desportiva notável. E até mesmo quando às vezes não passávamos do segundo ou do terceiro lugar. Quanto mais tempo passa, mais noção tenho disso. Éramos muito bons. Com verdade desportiva.
Não deixa de ser então duplamente esquisito estas coincidências todas entre a sua situação de saúde e a de Flo-Jo, que seguramente não se limitou a comer sopa de legumes e a beber água...
É verdade que há aqui coincidências que, à primeira vista, até seriam embaraçosas. Mas a explicação, sendo surpreendente, é simples. Passo a contar: eu ganhei a medalha olímpica em 84 e em finais de 86 comecei logo a ter problemas de saúde. Rupturas, lesões várias e pequenas complicações, diversas, sem relação aparente que me abatiam e impediam muita vez de obter os resultados para que me preparara. Passei a andar de médico para médico, fui a todo o lado, aos melhores, ao estrangeiro, tudo. Foi isto durante anos. Sempre me tratavam do problema concreto de que me queixava. Se tinha amigdalites, concentravam-se na garganta. A massa muscular ia-se alterando sem razão aparente, começaram a aparecer-me artroses. Nunca ninguém se lembrou de tentar perceber porque tinha eu tantos problemas... Correr começou a ser um massacre. A alegria, fora-se. Ninguém faz alta competição só com uma perna...Aos poucos fui abandonando o atletismo. Fi-lo com a idade mais forte para qualquer fundista. É preciso não esquecer que o Carlos Lopes ganhou a medalha de ouro com quase quarenta anos. Eu quando ganhei a minha , de bronze, tinha 24.
Ainda podia ter dado muito ao atletismo. Foi traumático abandonar?
Podia ter dado muito mais do que alguma vez dei, cada vez haveria de ter mais experiência e mais conhecimentos para fazer mais e melhor. Mas não foi assim tão traumático abandonar. É aqui que eu digo que a minha criação, a minha família, a minha terra são fundamentais no meu equilíbrio. Com o apoio deles e dos outros interesses que sempre mantive não me custou assim tanto. Aos poucos comecei a voltar-me para o negócio da família, depois montei as minhas próprias coisas e assim se passou tudo tranquilamente.
O que me revolta são as pessoas que não nos perdoam não continuarmos a ganhar e que resolvem inventar histórias, calúnias, para justificar aquilo que não aceitam. Especulações sobre a nossa vida privada, que é porque come, que é porque bebe, enfim...Como se só interessássemos enquanto vencedores, corpos - máquinas, carne para canhão. Como se só interessássemos para lhes tapar as frustrações. E revoltam-se os médicos e a sua negligência que sai sempre impune.
O que é que se passou com os médicos?
Como lhe dizia, andei atrás deles seca e meca, anos a fio, e nunca descobriram o que eu tinha. O ano passado tive os primeiros sintomas violentos. Fui parar às urgências aqui do Hospital de Espinho com desmaios. Medicaram-me como se fosse uma gripe e mandaram-me para casa. E eu sempre a piorar. Até que me levaram para o Santo António, no Porto. Aí, internaram-me de urgência e depois de testes e mais testes, durante quase um mês, descobriram finalmente: Hemocromatose. O que eu tenho, há anos e anos, e que ninguém detectou, é esta doença que se traduz num excesso de absorção de ferro. Um erro do metabolismo, que não elimina o excesso de ferro, e que se manifesta depois em complicações de toda a ordem: cirrose hepática, cardiopatias, diabetes, artropatias, depressão, etc., etc. Tudo sintomas que, de uma maneira ou de outra, tenho tido ao longo dos anos e que se agudizaram enormemente no último ano. Neste momento, entre outras coisas, sou insulino-dependente, tenho lesões no fígado e uma deficiência cardíaca.
Se pensarmos que os níveis de ferro no corpo humano devem andar entre os 12.8 e os 454, e que eu, quando me detectaram isto, tinha seis mil quatrocentos e oitenta e tal de ferro no organismo.
Isso tem cura?
Neste momento, estou a seguir um tratamento que consiste naquilo a que antigamente chamavam "sangria". Todas as semanas me tiram sangue, que tem excesso de ferro, para que o organismo reponha sangue novo, naturalmente sem a mesma acumulação de ferro. E estou a ser seguido por cinco especialistas diferentes, um para cada complicação concreta. Tenho esperança.
O que é que lhe disseram sobre a causa?
Ainda não se sabe ao certo. Sabe-se pouco e fala-se pouco de hemocromatose, sendo que é um problema muito mais frequente do que seria de supor e para o qual as pessoas deviam ser alertadas. Pode ser um factor hereditário.
Mas se é um factor hereditário, isso quer dizer que já tinha esse excesso de absorção de ferro quando era atleta de alta competição.
Exactamente. Essa é a triste ironia disto tudo. Muito provavelmente, a resistência excepcional que eu manifestava devia-se à Hemocromatose numa fase precoce. No início, sobretudo durante o crescimento, muito ferro só faz é bem, só dá é força. Fica a dúvida de quantos atletas, quantos "naturais" da força e da resistência não sofrerão, sem saber, desta doença, que com o tempo, em pouco tempo, dá este resultado...
O que me está a dizer é que o seu organismo, quando corria, estava, naturalmente, dopado.
De alguma forma, sim. Era um doping produzido pelo próprio organismo, sem que ninguém o imaginasse sequer. O ferro, que agora me quer matar, foi, para mim, até determinada idade, uma arma muito forte. De facto, hoje a ferritina está a ser usada em substâncias dopantes. Eu tinha uma capacidade superior de resistência em relação aos meus colegas, mas aquilo que era lido como uma vantagem era já um sintoma da doença. Não é irónico?
É terrivelmente irónico. Agora, quando olha para trás, consegue atribuir algumas das sensações boas que teve a essa anomalia?
Não sei. Talvez. Eu tinha uma força muito grande, corria com muita alegria. Penso que essa alegria tinha a ver também com o facto de haver alturas em que não me custava nada correr. Como se tivesse um corpo mágico, que eu podia puxar a um limite impensável para 99 por cento das pessoas. Sem esforço. Já vivi a experiência da forma perfeita, do controlo perfeito, de compreender o meu corpo profundamente, cada músculo, cada articulação.
São sensações inesquecíveis, de liberdade e de poder. Lembro-me de estar a correr num bosque, na Alemanha, a treinar, a sprintar havia uma hora, e de parar porque de repente percebi que não sentia o meu coração e que estava a correr com uma facilidade estrondosa e de ter medido as pulsações e ter captado 90 por minuto! Noventa por minuto, depois de andar há uma hora a treinar com a maior intensidade, a alta velocidade. Não é prodigioso?
É
Na altura eu não alcançava a verdadeira dimensão do prodígio. Foi uma época muito feliz. Quando corri nesse bosque, tudo o que senti e vi era perfeito. A paisagem era perfeita e os meus sentimentos para com a minha namorada, a minha família, para comigo mesmo eram os mais positivos. Penso que também foi por isso que se deu o tal momento prodigioso. Mas, independentemente destas experiências pontuais, à medida que o tempo passa, vai sendo cada vez mais claro para mim o trabalho, o treino, a concentração, a disciplina que são necessários para se atingir determinadas marcas no atletismo. Como vai sendo cada vez mais claro que a esmagadora maioria das pessoas não o compreende. Vêem os campeonatos de atletismo e os Jogos Olímpicos na televisão como se estivessem a ver filmes ou jogos de computador, imagens virtuais, e não realizam, por exemplo, as distâncias reais que ali estão a ser vencidas por corpos humanos, como os deles. Quando me dá para exemplificar, com passadas, o que significa saltar, por exemplo mais de vinte metros em comprimento, ou mais de dezoito metros em triplo salto, eu bem vejo a estupefacção das pessoas. Só assim compreendem o valor das marcas alcançadas, exemplificando no espaço real, com passadas. E é por esta falta de realismo no contacto com o atletismo que a tentação do doping também aumenta.
É sempre preciso fazer mais, ir mais longe, mais depressa para satisfazer o público, os governos, as marcas publicitárias, os managers. Seja à custa do que for. Os atletas ficam reduzidos a carne para canhão. Corpos para usar e deitar fora. Estragados, arruinados. Como bonecos inúteis depois do espectáculo. É a loucura geral. É uma grande pena. Para o desporto e para a humanidade.
É essa ideia - do atleta que só vale enquanto unidade de produção de marcas, de resultados - que o faz bater-se por uma associação que proteja os atletas em final de carreira?
Claro. Não lhe parece que um país que foi promovido e prestigiado com os resultados de certos atletas, obtidos através de tremendos esforços individuais, deve, quando o tempo de produtividade atlética termina, proteger e compensar esses cidadãos? Não se pode andar a arrecadar medalhas para Portugal e a fazer subir a bandeira nacional por esse mundo fora e depois ser-se esquecido. É uma questão moral. Uma responsabilidade do país para com os que o engrandecem. Numa modalidade, como o atletismo, que traz medalhas olímpicas para Portugal, as compensações são desta ordem: há dez anos eu ganhava 20 contos por mês. Quinze contos, pagos pela Federação, como apoio à alta competição, e mais cinco, digo cinco mil escudos, por estar classificado entre os cinco melhores atletas do mundo.