II Triatlo Longo do Zêzere
Campeonato Nacional de Triatlo Longo, Pedrogão Grande
“For some sports you need a ball, for triathlon you need 2!”
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A ideia de participar nesta aventura surgiu por acaso e a menos de uma semana do evento. Tudo devido ao entusiasmo que alguns dos melhores atletas nacionais, nestas distâncias, demonstravam no fórum online do clube de triatlo Tri-Oeste. Esse entusiasmo invadiu-me e decidi inscrever-me faltavam apenas seis dias para a realização do evento. Faz parte da natureza do ser humano tentar superar-se a si próprio e aos outros e, assim, rumei a Pedrógão Grande, sentindo um misto de emoção e receio. Sabia que me esperavam várias horas em esforço e, apesar de me sentir preparado, a incógnita de saber se chegaria à meta ou não mantinha-se. “Um jardim florido em rudes montanhas plantado”, a frase de entrada do site da Câmara Municipal de Pedrógão Grande, sem dúvida inspirava beleza mas também muita dureza. A partida para esta prova dar-se-ía na Barragem do Cabril, zona de fronteira entre os concelhos de Pedrógão Grande e Sertã. Por esse motivo tinha reservado estadia numa residencial em Pedrógão Pequeno, a um par de quilómetros da barragem. |
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O reconhecimento do percurso Após instalado decidi fazer o reconhecimento do circuito. Dirigi-me à Barragem do Cabril, onde verifiquei que as bóias, que demarcavam o segmento de natação, estavam a ser colocadas. Este circuito seria percorrido por três vezes por forma a totalizar os 2500m. Seguidamente fui reconhecer o circuito de ciclismo, que consistia numa ligação de 2,6Km entre a barragem e um circuito de 25,1Km, o qual seria percorrido por três vezes, e por fim uma ligação de 0,7Km entre esse circuito e o segundo parque de transição (adiante designado por PT2). Dei apenas uma volta, de carro, e fiquei cansado!!! Previa uma prova difícil, muito difícil. Encontrei diversas subidas complicadas e descidas perigosas. Ainda assim, esforcei-me por não pensar nisso e nem sequer estabelecer metas em termos de tempo final. A corrida seria efectuada num circuito urbano, em Pedrógão Grande, que consistia em cinco voltas de 4Km.
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Preparativos Escusado será dizer que foi muito difícil adormecer nessa noite. Eram seis da manhã quando tocou o despertador. Parecia que tinha acabado de adormecer e, de facto, apesar de me ter deitado cerca das onze da noite, calculo que não tenha adormecido antes da uma e meia da manhã. Levantei-me e fui tomar o pequeno-almoço ao Hotel onde os elementos da Federação se encontravam instalados, assim como grande parte dos atletas. Na sala de refeições reinava a boa disposição, e apesar de me encontrar igualmente bem disposto, também sentia um nervoso miúdinho.... Logo após o pequeno-almoço dirigi-me ao PT2, onde coloquei os sapatos de corrida e uma barra energética. Seguidamente, de bicicleta, dirigi-me ao PT1, junto ao local da partida, onde fiz as últimas verificações à bicicleta. Durante este processo chamaram-me para uma pequena entrevista, na qual apenas me perguntaram se era a primeira vez que participava num triatlo longo e qual o tempo com que esperava terminar a prova, ao qual respondi, com muita incerteza, entre seis e sete horas! Seguidamente iniciei a árdua tarefa de vestir o fato isotérmico. |
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O momento esperado A partida seria dada com os participantes dentro de água. Enquanto esperávamos íamos brincando com determinadas coisas que se íam passando. Ou era o fato isotérmico prateado de um dos atletas, que alguém terá perguntado se era da NASA, ou qualquer detalhe diferente que houvesse e, assim, neste espírito, a determinada altura foi ordenado aos atletas que entrássem na água. Olhei por uma última vez para as bóias e marcas em terra que me pudéssem servir de ajuda na navegação. A buzina soou e os 54 participantes remexeram as águas. Nunca até esse dia tinha nadado uma distância de 2500m e, por essa razão, comecei a nadar de forma relaxada. Acabou por ser uma boa opção, pois mantive um ritmo constante de principio ao fim. Terminada a parte em que me considero mais limitado, tinha a ideia que deveria estar em último. No entanto essa ideia depressa desapareceu pois ainda havia algumas bicicletas no PT. A saída do PT era marcada por uma rampa extremamente inclinada, com cerca de 100m de longitude, tendo optado por fazê-la a correr, com a bicicleta e os sapatos de ciclismo na mão, tendo-me calçado no topo da rampa, após o qual lá segui estrada acima.
Nesses primeiros metros ultrapassei uma das atletas e pouco depois estava na rotunda que marcava o inicio do circuito de 3 voltas. Na primeira volta, apesar das dificuldades encontradas, acabei por manter um bom ritmo e fi-la em cerca de uma hora, tendo inclusivamente ultrapassado alguns atletas e conseguido observar as belíssimas paisagens do percurso. Na segunda volta senti um pouco mais dificuldade, ainda assim, o ritmo não quebrou. Na terceira volta é que as dificuldades cresceram. Havia locais, sinais de trânsito, árvores e casas, que só de os avistar me dava uma enorme alegria. O desespero estava a começar a tomar conta de mim e já só me apetecia largar a bicicleta e começar a correr. A placa à entrada de Mó Grande, a de Torneira e por último, a de Pedrógão Grande, são marcas que não esquecerei tão depressa, pois marcavam o final de grandes dificuldades. Na última subida, antes de Pedrógão Grande, acabei por ser ultrapassado por alguns dos atletas que anteriormente tinha deixado para trás. Mas nesse momento já quase tinha a certeza que iria conseguir e, sendo a corrida o meu melhor, seria bem possível recuperar algumas posições.
Chegado ao PT2, já com mais de 4 horas de prova, e cumprindo com as regras estabelecidas, coloquei a bicicleta no espaço que lhe estava destinado, retirei o capacete e os sapatos de ciclismo e calcei os de corrida, tendo arrancado a um ritmo lento e de tão desengonçado que era, qualquer semelhança com corrida era pura coincidência. Este efeito ainda se manteve durante uns bons mil metros e, nesse momento, finalmente consegui controlar a minha corrida. Optei por fazer a primeira volta no ritmo mais confortável possível e no final dessa volta, tendo em linha de conta o tempo gasto e a fatiga sentida, decidiria quanto ao ritmo a impôr nas voltas seguintes. Nesta primeira volta, a prova em si estava confusa, pois havia atletas que estavam já na última volta, outros na quarta, e assim sucessivamente... Mas se os atletas em prova estavam confusos, o pouco público que assistia ainda estava mais confuso. Lembro-me de uma senhora de idade, sentada à porta de sua casa, me ter perguntado se já ía acabar em todas as vezes que por lá passei, por ironia, com excepção da minha última passagem. Voltando à corrida devo dizer que a penúltima volta foi excepcionalmente penosa, sobretudo psicologicamente, tendo resistido sempre à tentação de caminhar em vez de correr. Na última volta já parecia que tinha a meta à frente e na realidade começava a sentir um misto de extremo cansaço e de enorme satisfação. E assim terminei este conjunto de 2500m de natação, 80Km de ciclismo e 20Km de corrida em seis horas e dezasseis minutos. Curioso foi o facto de a cerca de 100m da meta ter tido uma ovação especial por parte de alguns dos atletas que se tinham classificado nos primeiros 10 lugares, o que me fez esboçar um largo sorriso.
Certamente a euforia da proeza perdurará por mais tempo do que as dores musculares. Igualmente esta experiência fez nascer o bichinho de um dia tentar o IronMan. Quem sabe para mais breve do que esperaria. O triatlo é, de facto, uma modalidade fantástica que reúne numa só prova três disciplinas extremamente exigentes e, assim, posso afirmar que a satisfação pode ser também multiplicada por três. Termino com um apelo aos praticantes de natação, ciclismo e corrida: dêem uma oportunidade ao triatlo e verão que não se arrependerão! António Coimbra 3 de Junho de 2005 |